15/07/2009

Minha rua

Minha rua não é mais a mesma.

Casas transformaram seus alpendres em ponto de comércio.

Algumas construções cederam ao apelo imobiliário e aquele sobradinho aconchegante veio ao chão para dar lugar a um prédio moderno.

Muros com grades fecharam as casas iludindo os moradores que a segurança vai acontecer.

Crianças não jogam bolas, nem brincam de queimada ou andam de velocípedes, adeus alegria inocente !

O barulho que mais escuto é o de carro e motos… zunindo!

De vez enquanto um beija-flor insiste em buscar o néctar, sobressaltando com o barulho dos carros.

Outro dia uma coruja se arriscou acomodar em uma árvore, talvez tivesse intenção de habitar ali, movimentava seu olhar numa beleza real. Mas, o bicho homem tratou de espantar, fez barulho, gritou: Xô coruja, azar aqui não!

E ela que não é de briga abriu suas asas e sobrevou aquele espaço com um olhar magnético como a dizer: pobres homens, espécie condenada a morte, não respeitam a si e nem aos animais!

Atravessar às vezes requer tempo, atenção, caso contrário corre-se o risco de pertencer à estatística de acidentados.

Não fale em acidente não! Várias vezes já presenciamos. Já houve até um que cachorro e moto se atropelaram, aí foi cachorro gemendo de dor para um lado e motoqueiro se contorcendo de dor, com a perna escoriada, para outro.

Devido a mão dupla é permitido estacionar nos dois lados, então o dia todo tem carro e moto estacionada no meio destes.

O cadeirante que precisar passar por lá vai ter que disputar o espaço com carros, motos, bicicletas, não existe rampa para dar acesso ao passeio e cada um foi construído de um jeito. As vezes encontro com o nobre cidadão dr Edgar Rocha circulando com seu cuidador entre os carros, aí tenho a certeza que falta mesmo respeito ao cadeirante e ao idoso.

Alguns vizinhos comentam: “vamos fazer um abaixo assinado, vamos sugerir mão única! Deste jeito fica impossível sair com o carro da garagem, não tem visão.”

Quando chove o bueiro transborda, fica horas e horas escoando de devagar a água da chuva.

A sinalização de chão está apagada, assim é comum ver um carro transitando na contra mão.

Minha rua não é mais a mesma, o tal progresso levou embora o sossego de outrora.

Esse progresso para mim não traz a qualidade de vida que preciso, me dá medo, me transforma em mais um.

Mais um que se distrai recordando como era bonito este espaço público.

Mais um que está cansado de procurar as autoridades em busca de uma solução.

Mais um que sabe que pode ficar até pior… se deixarmos como está para ver como fica!

“Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Só pra ver
Só pra ver meu bem passar”

Mônica Othero Nues
monica_nunes@terra.com.br