06/11/2010

Homenagem ao ‘sô’ Nenê

Tem certas horas na vida que a gente toma consciência do quanto nossa humanidade nos é pesada!!!

Podemos estar preparados, ao máximo, e prontos para qualquer embate, quando chega um fato, não um fato qualquer, mas daquele diferente e único, que nos abarrota e nos deixa sem qualquer tipo de ação.

Nesse último dia primeiro de novembro (dia de todos os santos) aconteceu uma dessas paradas obrigatórias na racionalidade… ficamos totalmente passionais.

Preparei-me, um bocado, para me despedir, publicamente e na presença dos amigos, no nosso querido Sô Nenê. Nos deixou, nesse dia, o Nenê do Juca do Polidoro, o Jesus do Padre Pio, o Nenê consertador de televisão (radiotécnico era uma palavra difícil de dizer e de entender na infância … e até hoje).

Na hora ‘H’ me calei, a voz embargou, uma lágrima rolou (na verdade, um monte) e ficou prá depois. Mas, se alguém tiver paciência, gostaria de dizer (escrever) essas últimas palavras de agradecimento aos amigos e de dar um adeus conforme seu merecimento.

Pra mim (e prá muita gente) o Nenê foi sempre uma pessoa muito especial. Sofreu, como a grande maioria das pessoas, com tudo que passamos nessa vida: doenças, perda de pessoas amadas, problemas financeiros, traquinagens dos filhos, solidão…

“Uai!!! O quê que ele teve de diferente de todos nós??? Todo mundo passa por isso!!!”

É verdade … mas, pelo menos para mim, nunca reclamou das provações do dia-a-dia – nunca escutei uma lamúria, um clamor, um lamento sequer! Num é que fosse super-herói ou, muito menos, insensível: só tinha muita fé!!!

Outra coisa foram os conselhos: ô trem difícil de conseguir!

É verdade que ensinou muita coisa – das que mais me lembro:

– nadar – nas corredeiras da pirapitinga, nos poções das ‘bombas” ou no PTC;

– fazer pipa que era uma beleza – difícil depois era tirar a papagaio dele prá brincar sozinho;

– pescar – em qualquer canto e qualquer peixe, até lobó;

– andar de bicicleta, não – mas na hora que ele viu que eu já sabia, arrumou o “gansão”, deixou ela “zerinha” … e lá saia eu com uma “bike “ nova, de 1960;

– jogar bola, também não – mas assistia aos treinos do PTC, bem escondidinho – “era medo deu virar atleticano”.

O mais importante, no entanto, foi ensinar a “correr atrás” – não tresloucado ou desvairado, mas devagar, sempre e, sobretudo, sem prejudicar ninguém.

Nunca falou “toma cuidado que esse negócio é difícil e você pode não conseguir”, mas sempre “vai com cuidado que esse negócio é difícil, mas você vai conseguir” – e, por isso, vencemos.

Quero adivinhar que havia alguns fatores prá ele ser “especial” – prá mim, único!

O primeiro era seu jeito de encarar a vida simples que sempre levou.

Diariamente, foi muito “alegre”, porque gostava de lembrar (e de contar) das coisas boas que passou: seu balanço era muito positivo! Seus filhos, seus netos, sua “rural”, sua viagem de férias foram muito mais importantes que aqueles momentos ruins que eu falei no início. Esses eram logo resolvidos, aqueles relembrados continuamente.

E, pense numa pessoa “feliz”. Isso porque sempre almejou, somente, aquilo que podia alcançar. Nunca teve pretensão de ter algo que pertencia a outra pessoa.

Contentou-se com “coisa pouca”: – tomou uma cachaça com o Tião Carreiro (só uma), lá em Ituiutaba, enquanto escutava o gemido xonado de sua viola;

– peixe grande, também, foi “bobage”: um “dorandim” de 12 quilos, um pintado de 25, um “jauzim” de 50 (o Manelico jurava que não passou de 40, mas vamos deixar por 60 que ele merece);

– e tem o “mengão hexa na raça” – “bão dimais da conta”!!!

Pra quê mais???
De mais só os amigos … e que tantão!!!

É isso, a todos vocês que tiveram a paciência de chegar até aqui … é a vocês que quero dirigir nosso agradecimento por terem ajudado esse viver tão bonito!

Quantas vezes insistimos com ele prá ficar mais junto da família, em Rondônia, em São Paulo, em Curitiba em Palmas: a resposta era fácil de prever:

“O que é que eu vou fazer lá? Foi aqui que eu nasci, meus amigos estão todos aqui e é aqui que vou terminar a vida! Vou até lá prá ver se aprovo esse lugar, mas tenho que voltar logo porque a Dona Lola não pode ficar sozinha!”.

E, por fim, sua imagem mais clara: tinha FÉ!

Confiou e temeu a DEUS, em todos os momentos.

Por isso temos certeza de que ele está lá em cima, junto com o Padre Pio, fazendo um “cevinha” prá “piapara de nuvem” e esperando por todos nós.

Um abraço e muito obrigado.

Seus Filhos